quarta-feira, 4 de junho de 2008

tous les jours

Todo dia. Dia de sair atrasado, e de ter uns 9 minutos pra percorrer alguns marcantes quarteirões. Saio com pressa e passei a esquecer o mp4. Fecho a porta de casa pensando na música que vai me acompanhar pelo caminho. Vou cantando mentalmente até passar por perto de uma casa que ja apelidei de 'africa'. Sei que lá mora um pai e varias crianças entre 3 e até uns 12 anos. Todos negros, de cabelo raspado, tomando café na varanda de casa enquanto o pai lá de dentro estoura uma raggae jamaicano no volume do som. O mais velho sempre esta roubando os menores num jogo de gude traçado no jardim. O mais novo esta sempre pelado comendo num prato de plástico azul claro, mas o que ele quer mesmo é brincar com a colher de gente grande. Quando paro de ouvir a estrondante música, volta pra minha mentalmente. A intenção é esquecer tudo pelo caminho, tentar começar o dia bem. Depois passa por mim - sempre - uma senhora japonesa numa bicicleta com a mesma expressão de quem vai dar um sorriso ou sei lá. Comprimento ela com a cabeça, ela me olha e continua com a mesma face. Sempre. Então viro uma esquina e o sol já esta refletindo bastante na rua, esta tudo bem mais claro. Confiro as horas. Aperto o passo. Volto pra minha música. Começo a 'viajar', como dizem. Nessas ultimas ruas - não sei porque - é a hora mais destraida dos meus dias. Lembro de todas as pessoas que já não merecem ser lembradas. E, ultimamente são muitas. Depois tem o cara do mototaxi numa esquina, sempre ali. No começo ele me via com pressa e perguntava se queria tomar o 'taxi' - eu dizia que faltava apenas três ruas. Hoje nem nos falamos mais. Tem também uma barraca de jogo bicho ou números...essas coisas. Tem sempre alguém discutindo os números com a mulher da venda. Hoje ouvi algo sobre 07 e 19. Daí em diante fico perto do meu caminho, começo a pensar nas pessoas que vou encontrar lá...se tenho alguma coisa pra falar. Problemas pra resolver. Os problemas de lá são tão pequenos comparados aos do começo do caminho. Nessa hora o passeio é péssimo e todo quebrado. Aí então vem o piso do passeio de uma venda qualquer, nitidamente anti-derrapante. Mas vai se arriscar a passar por ali contudo, não! não! Escorrega mais que casca de banana. Me seguro. Olho a hora e já deu 7 ou passou alguns minutos disso. Aí conserto a coluna, levanto o pescoço e enrolo alguns cachos do cabelo porque é hora de passar por alguns mal-encarados do colégio [quase] vizinho. Atravesso a rua, já não penso em mais nada. Comprimento o velho da sorveteria, olho o cabelo no vidro fume da porta e finalmente começo a acordar. Só então começo a acordar.

3 comentários:

Dan Souza disse...

Eu descobri que a rotina é uma coisa muito dolorosa!

Amo vc!

Juka Lordello disse...

Isso me lembrou um trecho de um dos livros de Paulo Coelho, que eu li, mas não lembro o nome... era algo mais ou menos como 'reparar o caminho a sua volta'...
Eu sempre achei a palavra 'caminho' um pouco dolorida e gostosa.
É vida, é esquina,são formigas mortas pelo os pés de quem passam.

Visualizar o caminho por onde anda é fundamental. ( isso você aprendera se ficar perdido em uma floresta andando em círculos inúmeras vezes)


Gostei do texto ;)

amanda lee jones disse...

concordo com Dani;
chega a ser tor-tu-ra.
mas tudo muda, tudo!

- é a vida desse meu lugar [?!]