terça-feira, 24 de agosto de 2010

Fantasia em poucas cores



Tento formar essas palavras sem escapar para frases de almanaques ou encaixes já clichês. Poderia começar descrevendo, mas já fiz isto desse cenário. Narrar me soa comum. Comum para mim é ofensa. Não quero parecer imenso nem padecer minimizando-me perante tais sensações. Quero falar de olhos sem ser repetitivo, quero dedicar palavras sem parecer romântico, falar de fugas sem parecer covarde. Ah, esse gosto pelo impossível. Quero olhar esse céu e dizer que tracei planos fugindo regras próprias. Hoje à noite o tempo nublou. Quero dar ponto paragrafo, mas temo quebrar o raciocínio. Poderia, assim, fugir-me a ideia de falar do modo como preencheria minhas lacunas diárias, comparar-lhe à construção – mas isso iria remeter a um beje tijolo que nada combina com nossas listras. Escapei nos últimos dias para um futuro sem futuro – quem sabe amanhã ainda o faça –, quase fui a um passado e estrago seus novos planos. Eu já duvido de mim a medida que falo disso. Seras encaixe do meu dia-a-dia que Freud explica? Ou serás passatempo para espera de doce novembro!? Há sentimento embrulhado perto de alguma recordação que talvez seja o que me desconcentra nas últimas leituras, me catatoniza no meio da música, me faz estirar o braço em cama vazia, me remete a lembrar do que nunca aconteceu, me faz ver escoar tempo, me ata e me deixa em nó. Se tens relação com isso me ponho em mais uma dúvida. Eu descrevo mais como um medo de passar em branco, escrevo mais como um porta-restante para tirar a limpo num mais que esperado dia de amanhã. Seja meu verso mórbido, meu não, minha lição. Não me acostume mau. Ando folgado, aliciado e um tanto mimado. Eu não falei do mar, nem das cores do pôr-do-sol de ontem; de dia algum. Meio ingrato e imerso num turbilhão. Em frases dessas o sono há de chegar e não vou te falar da canção. Mas então, até agora nada. Essa fantasia de poucas cores é minha, o som e todos os seus movimentos em minha visão periférica. Tens que partir-me em postas e não compactuar com meu erro e realizar meus planos. Ei de precisar de uma gota triste para não mais romper ideais que mais tarde hão de servir-me de escudo covarde qualquer. Mas e a outra metade? Nesse oculto ando a implorar que me tire o futuro das pedras de runas, me inteire, reintegre, me compreenda e se arrisque comigo. Me desgaste e arranque-me gotas de suor em noites ainda mais frias que esta. É pra não dizer que falei das contradições.
 

3 comentários:

Tiago Fagner disse...

Muito bom Victor, um dos melhores textos que li ultimamente.
Não se preocupe com os clichês, comporiam um bom almanaque.
Abraço!

Digaum5 disse...

Naum Precisa Escrever Tão Bem Assiiiim, Ooow...
Jah tens olhos Azuis!
Perfeito o seu texto REI

Abração

Fernanda Hauptmann disse...

Muito, muito, muito belo.